Era uma vez.

Dizem que a infância é a melhor fase de nossas vidas. Somos inocentes, maleáveis e acreditamos no impossível. Papai Noel existe e bicho papão também. As pessoas são boas e com Papai do Céu lá em cima nos vigiando, as coisas aqui na Terra estarão sempre bem e nada de mal acontecerá com a gente.
O grande problema é que o tempo passa e, depois de alguns anos, tudo que tínhamos como verdade é tomado de nós sem muitas explicações. Papai Noel simplesmente não existe, as pessoas estão longe de serem boas, nosso planeta não está nada bem e você está sujeito a coisas ruins a todo momento.
Sim, você é enganado a vida inteira e quando chega a adolescência seus pais não entendem o por quê de tanta rebeldia, tanta instabilidade, tanta confusão em uma só pessoa. Eles não percebem que tudo o que você sempre foi deixou de existir de uma hora para outra, e que em poucos anos você precisará construir uma nova personalidade para ser alguém de novo.
Eu, por exemplo, quando pequena adorava ver os filmes da Disney. Com eles formei uma concepção do mundo completamente diferente da realidade. Eu realmente acreditava que poderíamos voar (bastava pensar em algo bom e com a ajuda do pó mágico estaríamos andando nas nuvens) como Peter Pan nos ensinou. Pensava que a Terra do Nunca era logo ali e o nariz daqueles que contassem mentiras cresceria igual ao do Pinóquio. Eu tinha certeza de que tudo daria certo para as pessoas boas e as más teriam um final triste. Estava certa também de que príncipe encantado existia, que eu cresceria e seria tão bonita quanto a Branca de Neve, tão inteligente quando a Bela e tão esperta quanto a Ariel. Caso algo desse errado, minha fada madrinha me ajudaria em tudo que eu precisasse, e se ela não aparecesse, talvez o gênio da lâmpada pudesse surgir de algum lugar para me socorrer. Um beijo encantado de alguém especial, como o da Bela Adormecida, me acordaria de qualquer pesadelo; um tapete mágico me levaria para onde quisesse; eu conheceria o homem dos meus sonhos e apenas um sapatinho perdido seria motivo para ele me procurar, e ao me encontrar, seríamos felizes para sempre.
O tempo passou e eu cresci. Foi então que descobri que sozinhos não podemos voar, só conseguimos tal feito com a ajuda de um avião, uma asa delta, um balão ou qualquer outra tecnologia do tipo. E quando alguém mente, o máximo que pode acontecer com ele é se perder em sua mentira, e junto a ela muitas outras coisas podem ir embora como: confiança, amizade e amor do outro – mas o nariz não cresce não, continua intacto!-. A Terra do Nunca realmente existiu, tinha até um dono mundialmente conhecido que dançava de um jeito diferente, alguns até o chamavam de rei, mas a imagem de lugar incrível que eu tinha de lá estava completamente errada. Hoje, ser uma pessoa boa já não é sinônimo de pessoa feliz, fazer bem ao próximo não lhe garante um futuro próspero. Ser mal e sem caráter, dependendo da conta bancária do sujeito, pode até garantir um final muito feliz em Miami.
Já o futuro que eu imaginava para mim, como ter a beleza, a inteligência e a esperteza das princesas da Disney, passou longe. A fada madrinha e o gênio da lâmpada nunca me ajudaram (talvez estivessem ocupados demais fazendo a alegria de outras crianças em suas fantasias). O príncipe encantado virou lenda. Ele eu sei que está longe de ser real. Homem nenhum corre atrás de uma garota por causa de um sapatinho, eles procuram outras coisas. Aquela história de garoto apaixonado que deseja ser feliz para sempre com sua amada é pura ilusão. Amor de verdade a maioria das pessoas só tem por si mesmas. Você pode dar mil beijos apaixonados em alguém, mas fazer da "fera" um rei você não pode. Beijo encantado com poder de transformação só existe em contos de fadas. As pessoas são o que são e pronto, o poder da mudança não está no dom do gênio, na varinha de condão das fadas ou no feitiço das bruxas, está dentro delas mesmas. Para ser quem deseja ser, basta ter força de vontade.
Uma vida sempre feliz, sem sofrimento não existe; tristezas, dificuldades e decepções fazem parte dela.
Ah! Hoje eu sei que nada do que pensava é possível, mas eu acreditava...!