Dizem que toda pessoa tem uma alma gêmea. Que ninguém nasce condenado a vagar sozinho pela eternidade, pois a grande maioria das sinas foi traçada para ser seguida aos pares. Não é assim o casamento? “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe...”. Funciona como um trato, um acordo que duas pessoas assinam prometendo se ajudarem no cumprimento de suas missões – sejam elas quais forem. Por mais árduo que seja o caminho, a caminhada é sempre menos dolorosa quando feita em boa companhia. E é isso o que todos buscamos: uma companhia. Alguém com quem sair, conversar... alguém que durma e acorde conosco e a quem possamos emprestar um pronome possessivo. O ser humano precisa amar. Precisamos ter em quem confiar e acreditar. Precisamos de uma motivação, e nada como o amor para reger desejos, pensamentos e ações.
Há quem diga que é impossível ser feliz sozinho, ser amado e amar alguém é necessário. Nossa felicidade estará sempre associada a outrem e se não o possuirmos, sentir-nos-emos incompletos. Nunca saberemos se este vazio é algo natural, se nossa espécie realmente precisa de um relacionamento a dois com tamanha intensidade ou se tudo isso é invenção da sociedade. Basta nossas glândulas desenvolverem-se um pouquinho para a cobrança vir à tona... Se você estuda, tem sonhos, se gosta de fazer algo diferente, pouco importa... Todos querem saber é se você namora. Mal começa a puberdade e é só disso que se fala. Às vezes, nem é preciso esperar tanto. Quem nunca teve um amor na infância? E, diga agora, era “amor”? No real e tão profundo sentido da palavra? Claro que não! Era, no máximo, uma forte empatia. Uma amizade importante assim apelidada simplesmente porque amar é necessário. Na televisão, desenhos, filmes e novelas têm sempre um casal principal. O final feliz de qualquer história só é consumado com um beijo de amor – ainda melhor se no altar! E isso mexe muito com o imaginário das crianças.
Durante a adolescência, é tudo o que se busca. Rapazes e moças dedicam a maior parte do seu tempo ao incansável jogo de conquista que se trava em qualquer situação. Quando não, criam eventos e oportunidades para isso. São as micaretas, as festas, as raves... grandes encontros de jovens sedentos por “novos contatos”. A quantidade só se torna menos importante que a qualidade quando atinge um nível já considerado “suficiente”. Até lá, tudo o que se quer é “aproveitar a juventude”. No entanto, por que esse conceito de “aproveitar” é tão egoísta? Já que quase tudo na vida é melhor se feito a dois, o mais sensato é buscar logo um chinelinho velho e calçar o pé descalço, para, então, começar a caminhar.
Nessa fase da vida, desponta um grupo interessante: os encalhados. São os “ímpares”, vulgarmente conhecidos como “velas”. Jovens que não sabem lidar com toda essa “oferta de carne” e se condenam à abstinência como “forma de atingir o equilíbrio”. Mentira! Não passam de mal-amados e inseguros, que escolhem demais e sonham com esses amores idealizados enquanto assistem, sozinhos, ao passar dos anos. Sofrem muito, é claro. É deprimente conviver com a “Arca de Noé” que se tornou o mundo, povoada por casais de todo tipo, e onde não há lugar para desacompanhados. Os seres humanos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, é a lei natural das coisas. Mas parece que essas pessoas querem pular a melhor parte... Desperdiçam a certeza do hoje para esperar o amanhã, que é imprevisível. Contrapondo sua própria natureza juvenil, elas não se arriscam, pois o medo inconsciente do sofrimento ultrapassa qualquer tipo de razão que as faça lutar por alguém que valha a pena.
É a idéia negativa que se tem da solidão a responsável pelo surgimento de vários dos sentimentos nada agradáveis que tomam conta desses corpos, fazendo-os se sentirem rejeitados e inferiores, simplesmente por não terem o “meu bem” que, teoricamente, faz a vida valer a pena. O maior sofrimento das “velas” é interno. “Por que dá certo para os outros e não para mim?”. A partir de uma certa idade, todo mundo namora, e elas não. Presenciam constantes cenas de carinho por todos os lados e as vêem como inatingíveis ou muito distantes de suas realidades. Buscam se completar nos amigos, mas esses têm seus amores, que são sempre prioridades.
O amor, no entanto, vem para todos. Não simultaneamente, é claro. Mas sempre vem. O tempo de demora é que varia - e muito. Depende das necessidades de cada um. Entretanto, essa “intérfase afetiva” não precisa ser vista como um castigo. É sempre tempo de aprender. E, talvez, o Cupido só esteja dando, a cada um, uma chance – maior ou menor – de se preparar para o final feliz. Daqueles dignos de muita pompa e circunstância. E, Deus ajude, repleto desses beijos de amor.
