Alma.

Diversos autores já registraram a dificuldade de escrever sobre assuntos do coração. Eu concordo com eles, mas acho que ainda há outro gênero ainda mais difícil que este: assuntos relacionados à alma.
Tudo o que se refere ao coração a gente não vê, mas sente. Já em relação à alma, é preciso capacitação para conseguir enxergar e sentir algo, ou seja, o acesso a ela é muito mais limitado.
O mundo da alma é o mais complexo de todos, consegue misturar os outros dois (razão e coração) e ainda os intensifica. Diferencia-se pela forma que nos toca, pois tem poder da mudança e consegue nos guiar. A tristeza, por exemplo, quando chega até ele, consegue se transformar em forças e esperança.
A alma te orienta, esclarece muitas coisas para você. É nela que ficam os sentimentos mais nobres e os ensinamentos mais importantes.
Creio que a idéia de “alma gêmea” deve ter surgido exatamente dessa definição. Por permanecer nela tudo aquilo que temos e aprendemos de bom, encontrar uma “gêmea” é se deparar com aquela que compartilha com a gente conceitos e sentimentos especiais.
Se fosse no coração que prevalecesse essa história de amor, existiria então “coração gêmeo”, mas não é assim. Acho que funciona dessa forma porque o coração é cego, não escolhe muito por quem se apaixona, já a alma seleciona. Ela usa tanto o sentimento quanto a razão e só armazena aquilo que realmente será eterno.
Mas não é só de amor que a alma entende. Ela sabe sobre tristeza, esperança, alegria, rancor... tudo. O tal do autoconhecimento, por exemplo, depois que passa pelo mundo do coração e o da razão, só se concretiza mesmo depois que chega até ela.
Feliz ou infelizmente (não sei), recentemente me deparei com esse mundo da alma que antes era completamente desconhecido por mim. Concordo que o assunto é bem complexo, mas para tentar explicá-lo melhor contarei resumidamente minha experiência.
Em um dos momentos mais difíceis da minha vida, me deparei com uma dor muito grande, a razão não sabia explicar, o coração muito menos. Foi aí que percebi que a tristeza havia tocado a minha alma. Esta, sábia como ela só, primeiro ouviu todas as minhas lamentações e sofreu comigo. Mas depois ficamos sem nos falar e eu acabei esquecendo aquela dor. Eu só enxergava o sofrimento alheio, só via a dor do outro. Mas, os olhos não eram meus, eram da minha alma. Ela sentia por aquelas pessoas, havia uma melancolia que não me pertencia. Havia também um sentimento bom, numa mistura de pesar com alívio. Era a razão, o coração e a alma se juntando para me ensinar a realidade da vida.
Nunca foi um consolo para mim perceber que existem pessoas que sofrem mais do que eu, mas ver minha dor se aliviando aos poucos ao entender que ela poderia ser muito mais intensa do que realmente era, me consolou sim. Confesso que esse sentimento não era tão novo, minha razão sempre fazia esse tipo de comparação. Na maioria das vezes eu me sentia melhor, mas quando esse conceito chegou até a minha alma, ele se intensificou, ganhou forças e se aliou à esperança.
Entendi que se passar por vítima não é (e nunca foi) a melhor solução, não ajuda em nada, apenas leva embora nossos sonhos e amor-próprio. Sofrer pelo que passou e viver reclamando é perda de tempo. E quando se perde tempo, se perde a razão, o coração se arrepende e a alma lamenta.